Me diga que se lembra

Ela abre os olhos pela manhã e fica por minutos eternos observando o teto. Olha para os lados a procura de um sentido, uma razão para levantar, pegar aquela roupa legal que combina com seu dia e ir preparar o café. Mas em sua vã procura, levanta-se pega a primeira peça de roupa, a mais confortável independente da aparência, puxa sua bolsa e no café coloca o triplo de pó necessário, e o dobro de açúcar. Faz a mesma careta habitual de toda manhã ao sentir o gosto do amargo café. Mas seria apenas o café a estar amargo?

Passa pelo ônibus, entra no metrô e pelo reflexo do vidro olha os passageiros atrás de si. Tantas fisionomias, expressões, olhares… o que passava em suas mentes silenciosas toda manhã? Seriam barulhentas? Tanto quanto a dela?

Desce na metódica plataforma de todos os dias. Pausa atrás da senhora que a acompanhou do inicio ao fim do trajeto observando-a enquanto educadamente segurava sua bolsa e blusa, então ela caminha e sua mão pousa no corrimão da escada rolante. Sim, escada rolante pois seu corpo tornou-se refém das facilidades, da locomoção automatizada… todos os dias a energia se despede dela e fica sob o edredom enquanto ela sai e tenta driblar a falta que sua metade faz.

Chega ao trabalho, pega mais café, mais quatro colheres de açúcar (ou seriam seis?), senta diante do computador e começa seu dia. O relógio demora a avançar, seu olhar o namora a cada 10 minutos até seu horário chegar. Ela começa o dia pensando no seu terminar. Vez ou outra observa os detalhes aqui e ali e seu peito se enche, uma pontadinha de algo que às vezes esquece de cumprimentar todos os dias: esperança. A chama do observar que às vezes permite-se fazer se apaga quando a realidade lhe cobre a visão. Tudo se perde, se consome.

No espelho ela se observa. O cabelo molhado cai no ombro incontáveis vezes enquanto o pente faz repetidas vezes o mesmo movimento enquanto seu olhar encontra-se perdido na sua pupila que dilata e normaliza em uma velocidade tão alta que assusta. Seu reflexo grita enquanto ela se observa. “Você se lembra?”, pergunta, mas ela parece mais um robô ao qual foi programado para desligar na chegada da noite. “Ei! Se lembra.” nada. Seus olhos antes embriagados de sonhos agora é breu, vestígios de  poluição.. é descrença naquilo que mais lhe fazia e faria sorrir. Ela robotizou para ignorar a dor.

“Me diz… me diz que se lembra.” Imploro.

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De todos os anos, vinte e um invernos e uma vida inteira para concretizar tantos sonhos e anseios. De quatro estações, a mais fria é a que mais me aquece. De todas as artes, a escrita. De todos os lares, o coração. De todos os sentimentos, o amor.
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B r u n n a  C o r r e i a 
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